sábado, setembro 20, 2008
Por que algumas pessoas acham que mudanças sociais, políticas e culturais justificam ações do governo?
Erick Vasconcelos / 5:23 PM
No post anterior, Gustavo tentou - de forma um tanto desconexa às vezes, é verdade - rebater alguns dos argumentos que são usados normalmente em favor da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão. No curso de jornalismo (ao menos no da UFPE) os estudantes são bombardeados com essas razões pelos professores a todo momento. No entanto, não estou interesssado em analisá-las agora. Eu pretendo falar do argumento das "mudanças nas condições sociais e culturais".

Você provavelmente já se deparou com ele. Toda vez que que alguém vai defender alguma medida do governo ele é invocado. Basta que um interlocutor rebata a necessidade dessa nova medida governamental com o fato de que no passado essa medida não foi necessária ou que em outros países ela não é adotada sem maiores problemas.

No caso do diploma de jornalismo, a discussão se desdobra mais ou menos da seguinte forma:

- O diploma é necessário para assegurar a qualidade do jornalismo praticado.
- Mas no passado o diploma não era obrigatório e não consta que isso tenha gerado maiores problemas/Em países desenvolvidos o diploma não é obrigatório.
- Mas as condições sociais, políticas e culturais eram/são diferentes.

O mais interessante é que essas condições sociais, políticas e culturais que se modificaram nunca são especificadas. O fato de que elas são diferentes em relação ao passado ou a outros países é suficiente para justificar a necessidade de novas medidas por parte do governo. Como as condições sociais, políticas e culturais estão sempre mudando, você pode apelar para esse argumento a qualquer momento. Mas se perguntar quais foram essas mudanças tão importantes que justificam a adoção de novas medidas, você não vai ter resposta.

O que me interessa no momento, porém, não é o fato de que o argumento é empregado, mas por que ele é empregado.

Se formos observar os temas dos livros mais importantes de acadêmicos esquerdistas brasileiros mais destacados, nós podemos notar uma fixação constante com o "Brasil". Assim, você vai ver Celso Furtado falando da história econômica do Brasil, Caio Prado Júnior discorrendo sobre a evolução política do Brasil, Marilena Chauí dissertando sobre o autoritarismo cultural da sociedade brasileira. Pode ser que minha amostragem seja um pouco enviesada, mas mesmo que se discorde que esses autores (e outros da mesma linha) foquem principalmente no Brasil em seus trabalhos, me parece difícil negar que eles se interessam muito mais em retratar o Brasil do que em desenvolver teorias gerais mais abstratas.

A história, para esses autores, é a disciplina de maior importância. O que eles praticam é uma espécie de historicismo: eles estudam os fatos históricos e tentam extrair deles o melhor curso de ação.

Os liberais, por outro lado, freqüentemente são generalistas; isto é, eles tentam enfatizar teorias gerais aplicáveis a todos os casos. Eles focam em teoria econômica, que é invariável. A teoria econômica pode ser usada para interpretar os fatos históricos. Isto é, somente com uma teoria que explique a causalidade ou as correlações entre os eventos é possível estudar a história apropriadamente - caso contrário, o estudo não passaria de uma coletânea de eventos sem relação direta uns com os outros e nenhum evento histórico teria qualquer fato causador.

Daí é possível ver que as atitudes dos dois tipos ideais de acadêmico (de esquerda e liberal) se opõem frontalmente: um estuda a história em busca de singularidades, o outro estuda a história buscando aplicar generalidades.

Daí se explica também o efeito psicológico que o argumento das "mudanças sociais, políticas e culturais" causa. A história é necessariamente diferente de país para país. Você nunca vai encontrar histórias iguais de dois países - aliás, nem mesmo dentro dos países as histórias de estados ou cidades são iguais. Por outro lado, uma teoria econômica necessariamente deve ser capaz de interpretar todos os casos possíveis. Assim, o fato de que a história do país é única é suficiente para justificar também a adoção de uma medida única por parte do governo aos olhos dos professores de jornalismo. Não interessa quais são os pontos de singularidade num país que são relevantes para a discussão, porque esses professores (o "tipo ideal" de esquerdista de que eu estou tratando neste texto) já foram condicionados pela própria formação intelectual a ver a história como uma sucessão de eventos sem qualquer correspondência com outros países ou outras épocas.

Os liberais (ou melhor, os "generalistas"), por outro lado, tendem a considerar que as semelhanças - não as diferenças - com outros países justificam a adoção de certas medidas. Portanto, se, digamos, outros países alcançaram objetivos desejados pelos proponentes da obrigatoriedade do diploma (a melhor qualidade do jornalismo, etc.) sem a regulamentação, então isso é evidência de que a regulamentação não é necessária. Assim, para eles é suficiente você apontar outras épocas ou países em que a regulamentação não foi necessária para rebater o argumento - porque não é possível afirmar que seja uma teoria geral a de que o diploma de jornalismo obrigatório seja absolutamente necessário para alcançar os resultados pretendidos por seus defensores.

Em suma, psicologicamente os argumentos agem de forma diferente nos dois tipos de pessoa: o argumento da singularidade não é suficiente para convencer o "liberal generalista" de que, por exemplo, uma ação governamental é necessária - é preciso apresentar uma razão por que essa resposta seria válida em todos os casos; inversamente, o "esquerdista singularista" não considera suficiente que se aponte o fato de que, por exemplo, em outros países regulamentações não são necessárias - é preciso verificar se não há circunstâncias especiais em operação que não tornam a medida aconselhável.

Por isso que em debates sobre "políticas públicas" normalmente pouco se avança: porque os argumentos dos dois lados agem de forma psicologicamente invertida. Assim, os debatedores sempre pensam que o outro lado da discussão não compreendeu seus argumentos ou que está respondendo a argumentos já refutados.

Não é meu objetivo aqui criticar de forma mais aprofundada a epistemologia da pesquisa acadêmica dos singularistas ou dos generalistas, mas me parece óbvio que a metodologia dos "esquerdistas-singularistas" é totalmente incorreta: ao estudar os fatos únicos da história de um país, eles inevitavelmente lançam mão de teorias pré-concebidas, porque sem elas eles só poderiam publicar montes de dados ininteligíveis em seus livros. Seus argumentos, então, na maior parte das vezes são inválidos, porque as teorias em que se baseiam não estão explicitadas e, assim, não são bem desenvolvidas.

Enquanto esses fatos não forem reconhecidos, vai ser impossível uma discussão profícua. É preciso que os dois lados de um debate falem a mesma língua antes de começar a discutir.