quarta-feira, setembro 19, 2012
Uma introdução à teoria monetária austríaca
Erick Vasconcelos / 4:40 PM
Texto-base da palestra apresentada no II Congresso de Empreendedorismo do Agreste de Pernambuco (CEAP), em Caruaru.

Por que surgiu a moeda?

Sem a moeda – isto é, um meio de troca indireta –, é difícil que uma sociedade alcance um nível de desenvolvimento muito alto. Porque o nível de produção necessariamente teria que ser baixo para minimizar as perdas advindas de uma produção voltada para o escambo.

O dinheiro, a moeda, só é necessário quando a sociedade aumenta para além de algumas famílias. Uma só pessoa isolada não tem necessidade de moeda, nem duas pessoas que vivem numa ilha. Porém, quando a sociedade se expande para além de um pequeno número de pessoas, fica cada vez mais difícil orientar a produção econômica exclusivamente por trocas diretas.

Uma economia baseada no escambo teria que ser baseada na coincidência dos desejos dos agentes econômicos. Se fulano produz trigo e precisa de peixe e sicrano produz peixe e precisa de trigo, os dois podem acordar uma proporção pela qual eles podem fazer trocas entre esses dois bens. Mas se fulano quiser outro bem que não peixe, ele terá que procurar outro agente econômico que produza o bem em questão e torcer para que ele queira trigo.

Claramente a divisão do trabalho não poderia ser muito alta. Eu não poderia me especializar no meu ramo de atuação. Eu não poderia simplesmente me concentrar em escrever textos para palestras de economia se outras pessoas não estivessem dispostas a produzir seus bens e trocá-los diretamente por meus textos. Eu teria que ter uma produção extremamente diversificada para minimizar meus riscos de ficar com meu produto encalhado na prateleira.

Outro problema, além da necessidade dessa coincidência de desejos, seria o da indivisibilidade. Nem sempre os produtos que eu produzo são suficientemente divisíveis para estabelecer uma relação de troca vantajosa em relação a outro bem.

Mas a sociedade, com o tempo, percebeu que alguns bens tinham demanda constante e relativamente uniforme, e que esses bens poderiam ser sempre utilizados em transações. Em vez de fulano ter que trocar seu trigo diretamente por peixe, ele poderia trocar por um terceiro bem, e então trocar por peixe. Ele poderia trocar a proporção de trigo que quisesse por esse bem, e poderia usá-lo para trocar pela proporção exata de peixe que quisesse. E ainda poderia usar o mesmo bem para adquirir outro bem, digamos, arroz. Isso ocorre porque esse bem é o mais “líquido”, o mais “trocável”, aquele bem que está sempre em demanda.

Assim nasceu a moeda. Ou seja, a moeda, nos primórdios, necessariamente tem que ser um bem útil, que as pessoas já demandavam. Com o tempo, a utilidade dela cresce além do próprio uso que se faz da mercadoria. Além de uma mercadoria, ela se torna um meio de troca. Ao longo dos séculos as pessoas perceberam que os materiais mais apropriados para se tornarem moeda eram metais preciosos, como o ouro. Eles serviam para decoração, joias e, pela relativa raridade, eram símbolos de status. Se notarmos bem, o ouro é especialmente durável, é fácil verificar sua pureza, ele é muito divisível e uma pequena porção dele tem grande valor, o que o torna particularmente portátil. Sua homogeneidade garante que qualquer porção de ouro seja exatamente igual a outra. Quando um bem não é homogêneo, ele deixa de se prestar facilmente à função de moeda porque o valor de uma unidade desse bem não é perfeitamente equivalente ao de outra unidade.

Notem que a moeda não poderia ter surgido de outra forma que não por esse processo. A moeda não poderia ter sido imposta de cima para baixo. A moeda tem que estar sempre relacionada a uma mercadoria, que então ganha também utilidade como meio de troca. O dinheiro não poderia ter surgido de nenhuma outra maneira, já que não seria possível simplesmente declarar que um bem deveria ser usado moeda, porque isso não criaria demanda por aquele bem. É possível substituir de cima para baixo uma moeda criada pelo mercado, mas não é possível que essa moeda tenha sido criada do nada, sem uma base anterior.

Ludwig von Mises, em seu livro The Theory of Money and Credit, explicou isso de forma inversa. Ele se perguntou: por que há uma demanda por moeda? Nós não precisamos explicar por que há uma demanda por bens comuns da economia, como alimentos ou móveis. O simples fato de que trocamos bens por eles significa que extraímos um benefício desses bens.

Mas a moeda, em si, não tem utilidade nenhuma. Então por que a queremos? Por causa de seu poder de compra. As pessoas esperam que a moeda tenha poder de compra no futuro, e para isso utilizam como base o poder de compra dela no passado. Mas isso não é circular? Não, porque se formos regredindo esse processo no tempo, chegaremos num ponto em que a moeda era demandada por ter utilidade nela mesma e não porque era esperado que ela pudesse ser trocada por outro bem. Isso é o que Mises chamou de teorema da regressão.

De qualquer forma, através do escambo surge a moeda, que no geral foi atrelada a um metal precioso – o ouro ou a prata – nas diversas sociedades do mundo. Evidentemente, se formos olhar a história do mundo, as coisas mais curiosas já foram utilizadas como moeda – sal, vacas, conchas marinhas. Porém, a adoção mais generalizada foi a de metais preciosos, por causa das vantagens de portabilidade, divisibilidade e homogeneidade que eu já mencionei.

O advento do dinheiro provê várias vantagens à sociedade. Agora as pessoas podem se especializar em determinadas atividades baseada na razão entre o seu produto e a quantia pela qual ele pode ser trocada pela moeda – ou seja, em função dos preços. Com os preços, nós sabemos o que é mais necessário e o que é menos necessário na sociedade. Se os preços são “altos” de um certo bem, esse bem tenderá a ser aumentada. Se são “baixos”, a produção tenderá a ser diminuída.

É um meio fantástico de racionalizar o uso de recursos na sociedade. Sem as limitações do escambo, existe uma razão de troca para todos os bens da sociedade. Não mais é necessário procurar alguém que queira trocar o seu bem específico por outro bem específico. Nós sabemos exatamente qual é o “custo” de um fator de produção, então é possível comparar o “preço” da produção esse custo e verificar se há lucros ou prejuízos. Claramente, é possível haver um nível de produção bem mais elevado com a moeda. Sem uma unidade monetária, ficamos presos numa economia relativamente primitiva.

E qual deve ser a oferta de moeda?

Surgindo por esse processo orgânico, o estoque de moeda de uma sociedade vai ser sempre a quantidade total do bem que é utilizado como moeda. No caso de metais preciosos, o peso total do metal será o estoque de moeda. Se mais desse metal porventura for produzido, esse estoque total será aumentado. Contudo, metais preciosos em geral foram selecionados no mercado também porque seu valor permanece relativamente constante. É difícil que o estoque total de metais preciosos cresça significativamente. Os indivíduos tendem a preferir níveis de preços mais constantes e previsíveis. Se a moeda for outra coisa que não um metal e sua quantidade variar demais, seria difícil prever o nível de preços a determinado momento.

Como observou David Ricardo, a moeda também é um bem peculiar porque, enquanto meio de troca, um aumento da sua quantidade total não confere qualquer benefício social. O aumento da produção de outros bens aumenta a riqueza da sociedade como um todo – se produzirmos mais TVs, a sociedade poderá usar mais TVs e se beneficiará disso. Com o aumento da quantidade de moeda, não há a mesma vantagem. Um aumento da quantidade de moeda simplesmente diminui o valor de uma unidade monetária, porque qualquer quantidade da moeda pode desempenhar o mesmo papel que uma quantidade maior ou menor.

David Hume, o economista e filósofo inglês, fez um experimento mental em que ele imaginava que, numa tacada só, a quantidade de ouro que todos tivéssemos dobrasse. O que aconteceria? Nós ficaríamos mais ricos? Hume respondeu que não, já que o que nos torna mais ricos não é o aumento quantidade de meios de troca que possuímos, mas o aumento da quantidade de bens pelos quais podemos trocar nossa moeda. Logo, uma das grandes doutrinas dominantes da época, o acúmulo de metais preciosos do mercantilismo, não fazia sentido – assim, como não fazia sentido restringir importações e estimular exportações. Ao exportar, nós ganhamos moeda em troca. Mas moeda não é riqueza. Ao restringir as importações, nós ficamos sem poder trocar a moeda que ganhamos com as exportações. (Assim, quando, por exemplo, o governo restringe importações porque quer estimular exportações, indiretamente ele as está desestimulando.)

De qualquer forma, se nós dobrássemos a quantidade de moeda que possuímos, a única coisa que ocorreria seria uma diluição do poder de compra de cada unidade de moeda, com os preços aumentando, em média, 100%.

Contudo, essa diluição do poder de compra de cada unidade monetária não será uniforme e, portanto, “neutra”. Cada pessoa tem uma escala de valores ordinal dos bens que deseja em relação à quantidade de dinheiro que possui consigo. Com o aumento (ou mesmo a diminuição) da quantidade de moeda em seu bolso, essa escala de valoração muda. Assim, os preços dos bens da economia não aumentam de maneira uniforme. Podemos concluir que, embora um aumento da oferta de moeda não confira qualquer benefício social, ele causa mudanças na escala de valores dos indivíduos e, dessa forma, tem um efeito palpável na sociedade. No mundo real, quando, por exemplo, o governo aumenta a oferta monetária, ela nunca ocorre dessa maneira, de forma que a moeda disponível para cada pessoa aumente proporcionalmente de forma igual. No mundo real, certos indivíduos sempre pegam a nova moeda antes que outros. Os primeiros a pegarem o dinheiro se beneficiam de preços que ainda não foram afetados pelo aumento da quantidade de moeda. Paulatinamente o dinheiro vai se espalhando por toda a economia e a riqueza é redistribuída. Aqueles a quem a nova moeda alcança por último se tornam mais pobres em relação à situação anterior ao aumento da oferta monetária, enquanto que aqueles que pegam primeiro essa moeda se tornam mais ricos. Podemos concluir que um aumento (ou uma diminuição) da oferta monetária não aumenta nem diminui a riqueza total da sociedade, mas é capaz de alterar a distribuição dessa riqueza.

E se houver mais de uma moeda?

Até aqui nós vimos que a moeda surge como mercadoria, portanto seu valor também é governado por sua oferta e demanda. Qual é o valor da moeda? O valor da moeda é o nível de preços das outras mercadorias. A moeda é o único bem da economia que permanece em situação de escambo com todos os outros bens.

Notem que a “demanda” por moeda não é o mesmo que o desejo de ter mais dinheiro. A demanda por moeda é a demanda por uma disponibilidade de dinheiro em relação aos bens da economia. Mises chama essa disponibilidade de moeda de um indivíduo de “encaixe” – isto é, a quantidade de moeda que um indivíduo deseja ter disponível para seu uso a determinado momento. Como o futuro é incerto, necessariamente os indivíduos mantêm encaixes para serem usados a certos momentos. Para aumentar esses encaixes, as pessoas têm que vender bens (ou seja, preço dos bens cai porque as pessoas preferem ter mais dinheiro disponível consigo), e vice versa.
O bem que serve como moeda, porém, enquanto meio de troca, não nos torna mais ricos só por um aumento em sua quantidade. Veja que, se as pessoas quiserem aumentar seus encaixes e houver um aumento na quantidade de moeda na economia, isso só atrasa o estabelecimento dos encaixes dos indivíduos. Porque o que faz com que os indivíduos queiram aumentar (ou diminuir, não importa para o nosso exemplo) seus encaixes é a tentativa de estabelecer uma nova relação entre os preços da economia e a quantidade de meios de troca que possuem. Uma variação na quantidade de moeda, portanto, atrapalha no estabelecimento de uma nova relação de encaixes, uma vez que modifica a valoração individual dos bens da economia em relação à quantidade de moeda disponível para si.

Numa moeda que surge no mercado, assim, embora tenhamos uma estabilidade de preços muito grande, porque, em geral, a moeda escolhida vai ter a característica de reter muito valor e uma alta demanda sempre, os preços ainda variam em relação à quantidade de bens ofertados e ao nível desejado de encaixes monetários dos indivíduos.
Concluímos, então, que o valor da moeda é o seu poder de compra. O poder de compra de uma moeda tenderá a ser sempre uniforme, embora a oferta de bens em um lugar e os desejos dos consumidores em um lugar sejam diferentes dos desejos do consumidor em outro. Portanto, é fácil explicar porque, digamos, o preço do pão no Recife é mais alto do que o preço do pão em Caruaru. Porque são dois bens diferentes: um está mais perto do consumidor de Recife, que tem toda uma gama de bens e serviços diferentes à sua disposição em relação ao consumidor de Caruaru. Isso, no entanto, não invalida o fato de que o poder de compra de uma moeda tende a ser uniforme.

E se o valor de uma moeda, que tende a ser uniforme, é o seu poder de compra, o que acontece se existir mais de uma moeda? As duas moedas teriam seus dois poderes de compra. A razão de troca entre as duas moedas, assim, refletiria o poder de compra de cada uma. Essa razão é o “câmbio”. E o câmbio flutua de acordo com as alterações do poder de compra de cada moeda.

Historicamente, principalmente antes do advento dos bancos centrais, várias moedas podiam circular concomitantemente nos países. Em vários deles, por exemplo, o ouro e a prata circularam lado a lado. O câmbio entre o ouro e a prata tendia ao poder de compra de cada um dos metais, que, por sua vez, era determinado pela oferta e demanda de cada um deles. Se, digamos, um bem estivesse mais barato em prata do que em ouro, valeria a pena comprar o bem em questão em prata e vendê-lo em ouro. Assim, há sempre um incentivo para a manutenção do equilíbrio cambial entre as moedas em relação ao poder de compra de cada uma delas.

O mesmo vale para as moedas atuais. Se o real é capaz de comprar bens equivalentes a um preço mais baixo do que o dólar, a tendência no mercado vai ser comprar esses bens em real e vende-los em dólar, de forma que a demanda pelos bens em real faça os preços subirem novamente ao ponto de equilíbrio, que seria a paridade do poder de compra das duas moedas. Evidentemente, como no mercado para outros bens e serviços, nunca há equilíbrio – há desequilíbrio e forças que estão constantemente empurrando o estado para o equilíbrio.

O advento dos bancos

Ao longo da história, inicialmente para facilitar grandes transações, surgiram instituições para armazenar a moeda, que foram chamadas “bancos”. Embora as moedas metálicas fossem portáteis e divisíveis, havia grande praticidade em fazer trocas simplesmente com os recibos bancários. Esses recibos bancários davam direito ao portador de resgatar a quantidade de metal denominada nela ou transferir para a sua conta.

Ao contrário de armazéns para outros tipos de bens, armazenar a moeda era intrinsecamente mais central e importante economicamente, porque a moeda não é consumida, mas simplesmente transferida de uma pessoa para a outra. Gradativamente, recibos bancários passaram a ser utilizados como substitutos da moeda nas transações, já que os portadores desses recibos poderiam sacar a qualquer momento o equivalente em metal (ouro, prata ou outro material) para si. Outros métodos logo se desenvolveram também, como os cheques – que não passam de ordens dadas por um correntista para um banco para a transferência de uma quantia de dinheiro para outra pessoa.

Inicialmente, bancos operavam como armazéns, mas logo passaram a ser também instituições de crédito. Essas funções estavam originalmente separadas, mas logo foram incorporadas à atuação dos bancos pela posição em que se encontravam, de posse do dinheiro de um grande número de pessoas.

Assim, os bancos começaram não só a guardar o dinheiro que tinham em caixa, mas também a emprestá-lo. Ou seja, eles deixaram de ter 100% de reservas de moeda e passaram a ter reservas fracionadas, abaixo de 100%.

Por um lado, essa posição é vantajosa para o banco, porque ele pode receber um retorno pelo empréstimo do dinheiro. É também vantajosa para os correntistas dos bancos, porque, agora, em vez de pagarem pelo serviço de armazenamento, eles também recebem uma compensação por manterem o dinheiro em determinado banco.

Assim, quando um banco abandona 100% de reservas, há um aumento da quantidade de substitutos de moeda na economia em relação à quantidade de moeda presente nos bancos. Se todos os portadores desses substitutos decidissem sacar o equivalente em moeda ao mesmo tempo, o banco não seria capaz de honrar todos os compromissos. Porém, essa situação raramente é o caso.

Contudo, há limites severos para a atuação de um banco com “reservas fracionárias”. Ele não pode jamais ficar sem reserva alguma, caso contrário não seria capaz de honrar os recibos dos clientes que tentassem resgatar seus depósitos num determinado dia. Evidentemente, nem todas as pessoas fazem seus saques ao mesmo tempo, e por isso os bancos são capazes de continuar a operar com reservas menores do que todos os substitutos de moeda que colocam em circulação.

Atualmente os bancos atuam da mesma maneira, mesmo sem serem mais obrigados a terem em estoque ouro e prata para serem trocados pelas notas. Porém, da mesma forma, eles não mantêm em caixa todo o dinheiro de seus correntistas.

Ao aumentar os substitutos de moeda para além das reservas em caixa, os bancos causam um efeito inflacionário na economia. Isto é, da mesma forma como ocorreria com um aumento da oferta monetária normal, um aumento da oferta de substitutos de moeda causa os mesmos efeitos.

Dado que a demanda por moeda dos indivíduos permaneça constante, essa “inflação” dilui o poder de compra de cada unidade de moeda. Como já expliquei anteriormente, um aumento dos meios de troca da economia não confere qualquer benefício social, e o mesmo vale para o aumento da quantidade de substitutos de moeda. A inflação ainda tem outros efeitos mais nocivos, que eu vou explicar mais à frente.

Falando especificamente dos bancos, embora eles tenham vantagens em expandir a quantidade de substitutos de moeda para fazer empréstimos, sua posição é relativamente frágil, já que eles necessariamente não serão capazes de honrar os saques de todos os indivíduos ao mesmo tempo. Então há uma limitação do quanto os bancos podem inflar a oferta monetária sem se colocarem em risco de falência.

Se o mercado bancário for aberto e qualquer pessoa puder abrir um banco, ou mesmo se não houver sanções relevantes para os indivíduos não usarem bancos e preferirem utilizar moeda em vez de substitutos de moeda, há uma pressão para que os bancos mantenham altas reservas de moeda em relação aos substitutos de moeda. Uma vez que nem todos os clientes bancários são clientes de um só banco, toda vez que uma transação entre correntistas de dois bancos for feita, um dos bancos terá que transferir moeda para o outro.

Se um banco deixa de honrar seus depósitos, esse banco tende a perder a confiança dos correntistas. O resultado são as “corridas bancárias”. Corridas bancárias nada mais são do que a tentativa de grande parte dos detentores de recibos bancários de resgatar seus depósitos. Como sob um sistema de reservas fracionárias os bancos não são capazes de resgatar os depósitos de todos os que desejem recuperar seu dinheiro ou transferi-lo para outro banco, esse banco fatalmente vai à falência.

Nós, brasileiros, estamos familiarizados com corridas bancárias. Já sofremos algumas, como durante o governo de Collor. Hoje há alguns índices que guiam o nível de capitalização dos bancos, como o índice de Basileia, mas abaixo dos 100% de reservas, eles sempre correrão riscos. Em condições normais, porém, haveria fortes desincentivos para os bancos emprestarem muito além de suas reservas.

Nascem os bancos centrais

Esses problemas enfrentados pelos bancos ao emprestar além de suas reservas não têm respostas efetivas dentro do mercado, a não ser pela manutenção de altas reservas. Os bancos poderiam – e de fato tentaram – estabelecer cartéis voluntários. Mas, como em outros mercados, cartéis voluntários são instáveis. Nesses cartéis, os bancos concordavam manter o mesmo nível de reservas, a resgatar as notas de outros bancos e a não tentarem transferir a moeda de outros bancos para os próprios cofres. Porém, invariavelmente, um dos bancos tentava aumentar o nível de reservas para tentar amenizar sua situação de vulnerabilidade.

Claramente esse tipo de cartel não funcionou. Por isso, os bancos procuraram pressionar os governos a estabelecerem cartéis bancários compulsórios, através dos bancos centrais.

Foi mais ou menos dessa forma que, em diferentes momentos, diversos países adotaram sistemas de bancos centrais. O Brasil ganhou o seu em 1964, enquanto o dos Estados Unidos, o Federal Reserve, foi fundado em 1913. Já o banco central inglês existe há séculos, mas foi ganhando cada vez mais atribuições e direitos ao longo dos anos.

Bancos centrais controlam a oferta monetária de seus países. Em geral, eles formam sistemas de carteis bancários que, de forma concertada, controlam a emissão de substitutos de moeda em determinado território. Com um banco central, os bancos convencionais teriam mais segurança ao emitir substitutos de moeda além de suas reservas, porque o banco central garante que esse banco não fique descapitalizado na eventualidade de uma corrida bancária. Efetivamente, os bancos se tornam correntistas do banco central. Durante a vigência do padrão-ouro, todo o ouro foi transferido para o banco central, que também coordenava a emissão dos substitutos de moeda. Com essa coordenação da emissão dos substitutos de moeda, os bancos estavam livres para emprestar além de suas reservas sem grandes repercussões no mercado, já que, com a emissão uniforme de notas bancárias, não existe o problema de que um banco possa exigir a transferência da reserva de outro para si, aumentando suas reservas em relação aos outros. Isso significa que os bancos comuns têm um limite estabelecido pelo banco central ao seu potencial inflacionário, mas também significa que eles têm mais segurança na expansão monetária.

O padrão-ouro que vigorava em grande parte do mundo no começo do século 20, porém, também era um empecilho à atuação dos bancos e bancos centrais. Foi então que, através de uma série de manobras políticas, os governos descolaram a oferta de moeda do estoque de ouro, transformando o que antes eram substitutos de moeda em moeda de facto. Para auxiliar essa mudança, os governos também estabeleceram leis de curso forçado para impedir que suas moedas pudessem ser preteridas em prol de outros meios de troca mais sólidos.

Em resumo, a função principal dos bancos centrais é a de controlar a oferta monetária. Sua outra função primordial é a de servir como “banco dos bancos” – ou seja, de servir como último recurso para os bancos comerciais em caso de descapitalização. Além disso, ele também serve como mecanismo cartelizador do mercado, impedindo a entrada de novos concorrentes através de pesadas regulamentações (afinal, novos concorrentes seriam um problema para o sistema como um todo).

Por que os estados criaram os bancos centrais

Antes dos bancos centrais, os estados tinham algum grau de controle sobre as moedas dos países através dos tesouros nacionais. Os tesouros, em geral, possuíam o poder de emissão de moeda, mesmo sob o padrão-ouro. Essas emissões de substitutos de moeda fatalmente tinham que ser sacadas

Os governos, via de regra, possuem fortes incentivos para estabelecerem bancos centrais, já que, com eles, os governos ganham maior poder de controlar a oferta monetária dos países. Como já explicado, um aumento na oferta monetária não é capaz de aumentar a riqueza social, mas é capaz de redistribuí-la.

Estados só têm três modos de se financiarem. O primeiro é cobrando impostos, que são bastante impopulares. O segundo é através da dívida pública, ou seja, da contração de empréstimos de indivíduos privados. O terceiro é através da expansão monetária, que redistribui dinheiro para si. Essa expansão monetária era originalmente chamada de inflação. Contudo, o termo “inflação” acabou, por um motivo ou outro, sendo aplicado a um aumento generalizado do nível de preços.

Por não ser facilmente perceptível pelo público, a inflação monetária (em oposição à inflação de preços) se torna um método especialmente atraente para os indivíduos que formam o governo para financiar suas atividades. Assim, o lobby bancário se juntou à vontade política dos governos ocidentais de terem maior poder sobre a moeda e todo esse processo culminou nos bancos centrais do mundo moderno.

Efeitos da inflação

Além dos efeitos redistributivos, a inflação monetária tem outros efeitos prejudiciais à economia.

Durante o século 19, sob o padrão-ouro, era comum um tipo específico de “ciclo econômico” descrito por David Hume. No exemplo do economista inglês, ele falava do caso da França, que havia aumentado a quantidade de francos em circulação. O maior número de francos em circulação elevava o nível de preços na França. Com preços mais altos em relação ao exterior, as importações são estimuladas e as exportações desestimuladas. Os francos enviados ao exterior, então, para pagar esse desequilíbrio na balança comercial, eram sacados junto aos bancos franceses. Como havia mais francos do que depósitos reais em ouro, há um fluxo do metal para fora do país. Para evitar que todo o ouro saísse da França, os bancos tinham que enxugar a oferta monetária, contraindo empréstimos. Se o aumento fosse ocasionado pelo governo, ele teria que cobrir o rombo através do tesouro nacional. A contração da oferta monetária causaria uma queda no nível de preços francês e geraria um superávit de exportações, que reverteria o fluxo de ouro para fora.

Esse problema era frequente nos países durante o século 19, mas eram crises relativamente brandas em comparação com as que temos hoje em dia. O padrão-ouro servia como uma espécie de freio à expansão bancária do crédito. Somente com a expansão governamental concertada do crédito através dos bancos centrais nós chegamos às devastadoras crises do século 20.

Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek desenvolveram a teoria dos ciclos austríaca, ligando-a inescapavelmente à inflação monetária, que chega à sociedade através dos empréstimos bancários.

Por conta da inflação monetária, a taxa de juros cai. Essa taxa de juros indica o nível de poupança de uma economia. Os empresários, ao verem a taxa de juros baixa, são levados a acreditar que há muita poupança para ser investida na economia. Assim, são estimulados investimentos em bens de capital, bens usados na produção de outros bens. O aumento dos preços dos bens de consumo que acompanha a primeira fase do processo inflacionário, acompanhada de um aumento dos salários e de uma expectativa de maiores retornos após o processo produtivo, cria uma sensação de prosperidade na economia como um todo. Essa é a fase do boom.

Entretanto, à medida que a moeda entra na economia, se torna claro que os investimentos feitos foram incorretos, porque não havia fundos reais de poupança para cobri-los. Sem a poupança para financiar os investimentos, os empreendedores vão à falência em massa. Essa é a fase da depressão, ou bust. Os preços caem, salários despencam, há desemprego e empobrecimento. É preciso rearranjar os fatores de produção dentro da economia, porque anteriormente eles estavam dedicados a projetos que se revelaram errôneos.

Austríacos como Mises e Hayek afirmam que foi esse processo que ocorreu nos anos 1920 nos EUA, culminando com a crise de 29. Seus seguidores, inclusive, afirmam que o mesmo processo desembocou na crise imobiliária americana de 2008. No Brasil, temos atualmente um processo parecido em curso, com um crescimento enorme do setor imobiliário através da expansão creditícia. Esses ciclos de expansão industrial e depressão têm sido constantes desde o advento dos bancos centrais e da extensão do crédito para investimentos através do setor bancário.

A inflação monetária, através do aumento de preços dos bens da economia, se acentuada, também pode fazer com que as pessoas comecem a comprar cada vez mais bens, porque há a impressão generalizada de que se aguardarem, os preços vão subir ainda mais. Com a queda na demanda por moeda e o aumento na demanda por bens, a inflação de preços passa a ser ainda maior do que a própria expansão monetária. Governos geralmente, ao invés de contraírem a oferta de moeda para conter o aumento dos preços, são levados a expandir a oferta monetária ainda mais com o aumento dos preços dos bens de consumo, já que as pessoas não têm dinheiro em seus encaixes para comprar os bens a preços altíssimos. É nesse ponto que a inflação passa a ser hiperinflação – a demanda por bens aumenta astronomicamente enquanto a demanda por moeda cai assustadoramente.

Essa situação foi comum no Brasil nos anos 1980 e no começo dos anos 1990. A expansão monetária, porém, no país, acontecia através da compra de bens de consumo diretamente pelo governo, e não alcançava o mercado através do mercado de crédito. Se fosse pelo mercado de crédito, teríamos um ciclo de crescimento e retração industrial. No caso brasileiro, houve o que se chama de “inflação simples”. O banco central brasileiro emitia moeda e comprava títulos do tesouro com essa nova moeda, financiando os gastos do governo. Esses gastos batiam diretamente na economia, que não tinha a sensação de prosperidade típica dos ciclos de inflação de crédito. Ao contrário, só havia gastos do governo e o aumento generalizado dos preços que culminava em hiperinflação.

Soluções?

O que eu apresentei aqui foi uma visão geral da teoria monetária da escola austríaca de economia, que é geralmente associada a Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek, mas remonta a Carl Menger e Eugen Böhm-Bawerk no século 19. Hoje em dia a escola voltou a ganhar uma certa notoriedade. Junto com a teoria monetária, apresentei também uma explicação austríaca para o fenômeno dos ciclos econômicos e uma crítica à inflação. Eu também apresentei, embora não tenha citado nomes, uma resposta às principais críticas às visões desses autores.

Em termos de política, os austríacos diferem um pouco nas soluções para os problemas econômicos atuais. Em geral, porém, eles são favoráveis à retirada do governo do envolvimento com a moeda. Mises e seus seguidores, via de regra, recomendam um fim imediato à expansão monetária e um retorno ao padrão-ouro, que, pragmaticamente, limitaria a capacidade de os governos e bancos de causarem inflação e problemas econômicos maiores. Hayek, por outro lado, recomendava um esquema complexo de moedas concorrentes cujos valores estariam atrelados a uma cesta de bens.

Qualquer que seja a solução, porém, ela sempre envolve a retirada do estado da seara da moeda.

Da minha parte, eu ficaria satisfeito com o simples fim das leis de curso forçado, permitindo que os indivíduos utilizassem o que quisessem como moeda. Assim, poderiam escolher a moeda que quisessem dentre as já existentes ou, como no passado, eleger uma nova mercadoria para preencher esse papel.