segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Protecionismo e sanções
Gustavo / 10:47 PM
Ninguém nega que, quando um país impõe sanções comerciais sobre outro, a população do país sancionado sofre. O que muitos ignoram é que, quando um país adota medidas protecionistas, ele não faz mais que sancionar a si próprio. Se um país usa de sanções pra castigar outros países, a única conclusão a que se pode chegar é que ele usa de protecionismo pra castigar a seu próprio povo. O bloqueio a Cuba é uma sanção. Ninguém nega seu efeito devastador na economia cubana. Por outro lado, todos os governos, em maior ou menor grau, impõem bloqueios a se próprios, e ousam dizer que têm efeitos positivos.

A lógica é simples e direta: a conseqüência para a escassez causada pelas sanções não pode ser diferente daquela causada pelas medidas protecionistas. Não existe sentido em propor algo assim. Um fato não se torna melhor ou pior dependendo do que o causou. Se se abolir a escravidão por via pacífica ou por via armada, a abolição não se torna melhor ou pior, é a mesma. Se se proibir o consumo de algo por via interna ou externa, idem.

Não se pode dizer que ser forçado por um agente estrangeiro a ficar sem automóveis tem consequências distintas de ser forçado por um agente nacional ao mesmo destino. A consequência é andar a pé. A fome que se passa porque o vendedor se recusou a nos vender o almoço não é, forma alguma, menos prejudicial que a fome sofrida porque você não pode comprá-lo. O prejuízo é o mesmo: a pessoa começa emagrecendo. Depois, definha. Por fim, morre.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
A verdadeira solidariedade
Gustavo / 12:29 AM
Toda aquela história de que você, aos 20 anos, se não for comunista, não tem coração - como se o comunismo fosse, de fato, uma ideologia mais bonita que o capitalismo, porém impraticável - nunca me pareceu verdadeira.

O comunista aponta para a miséria de hoje, e diz que quer acabar com ela a qualquer custo. O capitalista olha para a miséria das próximas gerações, e é delas que se compadece. O comunista cobra taxas elevadíssimas do desenvolvimento para garantir que todos tenham sempre acesso aos bens disponíveis quando foi implantado. Pára um país no tempo, consumindo sua produtividade, impedindo seu desenvolvimento para unir a todos num mesmo nível de vida. Melhora, em sua forma mais ideal e poética, embora impossível, a vida da população naquele exato momento. Mas prende para sempre as futuras gerações àqueles recursos limitados.

O capitalista deseja que as próximas gerações tenham acesso a mais do que nós temos. Ao defender que a produção e o investimento sejam estimulados, o capitalista age de forma muito mais desapegada que o comunista. O comunista quer deixar, ele próprio, de ver a miséria - isso é egoísta. O capitalista quer que, um dia, o mais miserável dos homens viva melhor que ele próprio - isso é solidário.

O homem tende a esquecer que o tempo, de todos os bens, é o mais imprevisível, o mais incontrolável e, efetivamente, o único bem inalcançável. Ao estender seu desejo pelo tempo, ao propor que ele seja o motivo de suas ações, o capitalista se aproxima muito mais do ideal expresso verbalmente, efusivamente, por qualquer comunista, do que eles próprios ao propor a igualdade imediata. Porque, para manter-se a igualdade, não pode haver crescimento. Os fios de cabelo, bastante homogêneos, não crescem todos na mesma velocidade. O homem, tão diverso, jamais conseguiria.

Toda melhoria, toda inovação, depende da desigualdade. Quando inventou-se o avião, o protótipo era único - não é possível inventar milhões de aeronaves a um só tempo. Ou dezenas de prensas, dúzias de escovas de dentes. Não se testa uma nova forma de diálise em milhões de pacientes simultaneamente. Não é possível uma inovação impor-se sobre as tecnologias existentes de forma uniforme.

O capitalista tem noção disso - e sacrifica o presente pelo futuro. O desejo capitalista por uma sociedade sem pobreza não passa pela imposição urgente da igualdade. Passa, ao contrário, pela disposição da vontade do homem ao longo do tempo, e pela  confiança de que algum sacrifício hoje será responsável por menos sacrifícios num futuro longínquo. Num longo prazo em que, talvez, todos estejamos mortos. Mas haverá, ainda, homens. Haverá ainda o futuro. E haverá, mais que tudo, a certeza de que amanhã pode ser melhor que hoje, e de que esse fato é irrevogável e eterno. Para isso, entretanto, é preciso doar-se para o futuro. É preciso investir. E não existe investimento sem lucro. Não existe investimento sem propriedade privada. Não existe, enfim, outra forma de melhorar as condições de vida da humanidade.