sexta-feira, abril 26, 2013
As Filipinas contra Hobbes
Erick Vasconcelos / 1:27 AM

No primeiro episódio da série Vice, falaram da situação das Filipinas, que, apesar de seu estado democrático centralizado (com uma constituição copiada da dos EUA, inclusive), em época de eleição se torna um campo de batalha. Os políticos formam exércitos pessoais e abrem trincheiras de batalha pelo país todo para se matar (literalmente, e levando junto a população civil) pelo poder.

Como é regra nos países subdesenvolvidos, ser político nas Filipinas é extremamente vantajoso - traz influência e poder econômico. Lá, porém, é também o lugar mais perigoso do mundo para entrar na política. Em dez anos, foram 1200 assassinatos políticos.

O que é algo um tanto interessante para o argumento hobbesiano sobre a necessidade de um estado centralizado. Segundo ele, não é possível haver paz social sem uma centralização estatal. Mas o caso das Filipinas demonstra que a mera centralização claramente não é suficiente para trazer essa paz (evidentemente as Filipinas não são o único caso que falseia a ideia de Hobbes, mas talvez sejam um dos casos mais extremos).

Logo, a centralização do poder estatal deve vir acompanhadas de outras condições sociais acessórias. Digamos que centralização sem as condições X, Y e Z não traz o resultado pretendido (o fim da guerra de todos contra todos do estado de natureza, neste caso).

Manter ou acabar com o estado, assim, não é o fator que traz, em si, a paz ou o conflito; são as condições X, Y e Z.

Analogamente, anarquistas não necessariamente precisam defender qualquer tipo de anarquia (ou seja, até mesmo "anomias", em que não há qualquer ordem social). Eles podem defender anarquias que também satisfaçam as condições X, Y e Z - da mesma forma que defensores do estado se veem forçados a só defendê-lo quando ele satisfaz essas condições de paz social.
quarta-feira, abril 17, 2013
O problema com as soluções de mobilidade urbana
Erick Vasconcelos / 11:10 AM
Problemas de mobilidade urbana tendem a ser tratados como problemas de engenharia de tráfego.

Assim, vários movimentos sociais que discutem a questão do transporte público acabam se iludindo com soluções como faixas exclusivas para ônibus, novas linhas de metrô e ciclovias (em geral porque transportam mais gente utilizando uma área menor).

Isso é um erro.

A questão não é mais transporte público, embora, de fato, um transporte coletivo de qualidade faz com que uma cidade suporte uma densidade demográfica maior.

O real problema, porém, é fornecer incentivos para que o transporte coletivo se adeque às necessidades dos consumidores. Faixas exclusivas para ônibus, por exemplo, não fazem isso. Pelo contrário: elas trancam os itinerários dos ônibus a determinados locais e fazem com que a cidade se espalhe em volta das linhas. O objetivo é o contrário: fazer com que as linhas se adequem à cidade e não a cidade às linhas.

A ideia é que, não importa onde forem, as pessoas tenham a possibilidade de ter transporte para outros locais da cidade. O planejamento central do transporte coletivo, como acontece na esmagadora maioria das cidades atualmente, porém, é incapaz de fazer isso. Ele não tem incentivos adequados.

Só um mercado seria capaz de responder às necessidades de transporte dos habitantes de uma cidade - da mesma forma que um mercado atende às necessidades de compra de alimentos de uma determinada região. Por que uma burocracia faria linhas de trem ou ônibus atendendo às necessidades de uma região que cresce na cidade?

Uma melhora do transporte público dentro de uma determinada região só afrouxa o cinto. Ganha tempo, mas inevitavelmente o transporte coletivo piora.