segunda-feira, novembro 23, 2015
@Precisamos falar de como Hunger Games é horrível
Erick Vasconcelos / 2:57 PM
Escrevi o texto a seguir no Facebook depois de assistir o quarto filme de Hunger Games. Achei que valia guardar para a posteridade aqui.
* * *
Eu nem deveria escrever isso aqui porque tá na cara que Hunger Games é horrível mesmo, mas eu tinha que tirar isso do peito, já que eu assisti o quarto filme ontem.

Se você tem 12 anos e tem medo de spoilers, não leia a seguir.

1) Como você pode ler nestes textos aqui (1, 2, 3), a Katniss, desde o primeiro filme, não tem nenhuma agência. Ela só é um peão no tabuleiro da série sendo manipulada pelos outros. Ela não faz nenhuma escolha, ela não avança a história de nenhuma forma. Isso não seria tanto problema se ela não fosse heroína feminista, mas a gente espera que mulheres símbolo de Força demonstrem pelo menos alguma faísca de independência (vou falar mais disso a seguir).

2) O segundo Hunger Games que inventaram pra encher linguiça (o tal do Quarter Quell) foi pura preguiça de roteiro. Não tinha qualquer necessidade de acontecer, mas eles colocaram aquilo ali no meio de qualquer jeito. Aí, as it turns out, não só a Katniss e o Peeta eram os únicos que não sabiam do MASTER PLAN pra libertar todo mundo dentro do jogo, mas o gamemaker Plutarch é do BEM (mais sobre isso a seguir), apesar de ele já ter tentado matar todo mundo inúmeras vezes com armadilhas ridiculamente difíceis de escapar.

3) No começo do último filme, o Peeta recebeu lavagem cerebral do governo e tenta matar a Katniss sempre que a vê ou ouve falar dela. Fair enough, é até um desenvolvimento do plot mildly interesting. Mas aí, forçam a barra pra caralho quando vão mostrando o desenvolvimento dele durante o filme. No final, apesar de o Peeta tê-la quase matado tipo meia hora antes no filme jogando ela num monte de óleo, a Katniss é praticamente uma santa, o perdoa e está disposta a ter bebês com o rapaz.

4) Enquanto isso, o cara com quem ela namora desde criança diz que está disposto a aguentar um certo número de casualties se isso significa que o lado dele vai ganhar a guerra. A Katniss fica revoltada, porque aparentemente a ideia de que a guerra terá vítimas está BEYOND THE PALE. Dali, ela renega todo o romance com o cara desde criança e está disposta a ficar com o maluco que tentou matá-la durante todo o filme. Por incrível que pareça, esse é o maior exemplo de exercício de agência que a Katniss tem durante todo o filme. No resto, ela só fica sendo jogada de um lado pro outro pelos Powers That Be.

5) A certo ponto, a Katniss decide que quer matar o Presidente Snow com as próprias mãos. Maravilha, a vingança é sempre um grande motivador. Ferida, ela se esconde no avião e aparece no campo de batalha disposta a encontrar o Snow sozinha... aí desiste quando acaba colocada num time de Garotos Propaganda que não estava nem lutando nas frontlines.

Sim, a Katniss não luta, ela fica num time que está dias atrás dos verdadeiros soldados pra filmar propagandas inspiradoras.

Todo esse mote de que o Mockingjay era uma figura inspiradora necessária para a revolução era bem ridículo desde o filme anterior, mas mesmo que a gente conceda o ponto, é absurdo que você deixe os MELHORES FIGHTERS do exército pra trás pra filmarem propaganda.

E é nesse ponto que a maior parte do filme fica. O grupo da Katniss, com todos os caras que a gente conheceu nos filmes anteriores, não significa nada pro plot. Eles não são necessários em nenhum momento. Todas as aventuras deles se passam porque eles estão tentando filmar propagandas.

Eu não consigo pensar em nada mais LOW STAKES que isso. Ah, tem um monte de gente que morre nessas aventuras irrelevantes. A morte deles foi literalmente em vão.

6) Aí o Boggs, o comandante do grupo eventualmente morre e o comando passa pra Katniss meio que acidentalmente. Ela decide abrir seu plano pro resto do grupo que eles devem matar o Snow em vez de filmar propaganda. Muito bom, todo o time passa a trabalhar em equipe pra chegarem até o palácio, tem várias lutas, a Katniss está quase chegando lá, até que... ela não chega e acorda no hospital.

O filme tem cerca de 2 horas de buildup pra um confronto final que NUNCA ACONTECE. O filme não tem climax, toda a aventura da Katniss e do resto do grupo (inclusive das pessoas que morreram) não significa absolutamente nada.

7) Quando a Katniss ia chegar ao palácio presidencial, um avião joga "suprimentos" para a população nas ruas. Na realidade, os balões tinham bombas, que acabam matando muita gente (principalmente crianças) de todos os lados da guerra. Os guardas presidenciais interpretam aquilo como ordem do governo e se voltam contra o presidente. A "Revolução", que a gente nunca vê acontecer porque estamos seguindo as aventuras irrelevantes da Katniss, entra no palácio sem resistência.

8) Mais tarde a Katniss confronta o Snow, que estava preso numa estufa de plantas (????). Ele fala que na verdade, jogar bombas nas criancinhas foi um plano da Presidente Coin, a líder revolucionária, que na verdade só queria se tornar uma ditadora.

Essa é a parte mais flimsy do roteiro. A gente nunca teve qualquer sombra da ideia de que a Coin era maligna. Essa é a segunda vez que a gente ouve essa sugestão, e do cara que foi o ditador maléfico por 4 filmes. Antes disso, só o Boggs tinha dito isso logo antes de morrer (mas ele tinha dito que a Coin ia querer ser presidente, não que ia matar criancinhas e se tornar ditadora).

A Katniss fica imediatamente convencida e se volta mentalmente contra a Presidente Coin. Esse foi um dos piores plot twists que eu já vi. Ele não tinha nenhuma base pra acontecer, mas todo mundo começou a agir como se a Coin fosse malvadona mesmo.

9) Coin nomeia a si mesma como Presidente Interina e NINGUÉM FALA NADA A RESPEITO, só fazem caras feias. Depois ela decide que vai rolar um Hunger Games com a elite da capital. Numa votação da cúpula da revolução, eles decidem que o Hunger Games vai rolar mesmo. A Katniss vota "sim" com a condição de que ela execute o Snow naquela tarde.

Esse momento do novo Hunger Games era só pra mostrar "VEJAM, A COIN ERA NA VERDADE MALVADA O TEMPO INTEIRO", mas eles não estabelecem essa necessidade em nenhum momento. É só um subterfúgio muito frágil pra avançar o plot.

10) Na hora da execução do Snow, a Katniss decide que vai matar a Coin. Ela dá uma flechada na New Evil President Coin e a multidão avança pra matar o Snow com as próprias mãos. Nem nesse momento a Katniss tem qualquer agência, porque ela só tá seguindo o que o Snow disse pra ela. O Snow, por sinal, dá gostosas gargalhadas com o que ocorre.

11) Por algum motivo a multidão não ataca a Katniss depois de ter suas expectativas de execução em praça pública frustradas.

12) A Katniss NÃO É PRESA. Todo mundo passa a agir como se já soubessem que a Coin era Sinhazinha Malvadeza e pensam "Ah, essa Katniss, né? Ainda bem que ela cuidou dessa tal de Coin."

Ninguém nem pede explicações. Todo mundo automagicamente presume que a Katniss fez o Melhor Para o Povo.

Isso tudo apesar de ninguém ter levantado qualquer suspeita contra a Coin até aquele momento.

13) O Plutarch, o gamemaker que tentava matar todo mundo desde o filme 1 mas foi revelado como personagem do bem, age como se aquilo tudo estivesse dentro dos seus planos desde o começo, dando um sorriso de canto de boca. WTF? Como ele poderia prever aquilo? Por que ninguém advertiu a Katniss que a Coin era do mal desde o começo? Por que tá todo mundo agindo com naturalidade quando a Katniss tomou essa atitude supostamente chocante e out of the left field?

14) A Katniss volta para seu distrito, se casa com o Peeta e tem bebês com ele. Peeta, a esta altura, estava completamente recuperado e eles dois levam uma vida idílica próxima à natureza. Porque é fácil esquecer que o cara tentou te assassinar múltiplas vezes, difícil mesmo é perdoar a visão um pouco mais agressiva que seu namorado de infância tem sobre vítimas colaterais da guerra.

Resumo:
- A Katniss não é necessária para o plot. Ela não tem nenhuma independência, nenhuma agência. O filme sem a Katniss seria exatamente igual.
- O plot em si tem desenvolvimentos completamente bizarros e sem fundamento.
- No único exemplo em que a Katniss demonstra o mínimo de agência, ela faz uma escolha totalmente sem sentido.

9/10 would watch again
quarta-feira, julho 29, 2015
Eduardo Cunha e o petismo facebookiano
Erick Vasconcelos / 7:06 PM
A fama do Eduardo Cunha só mostra como esse país é um pasto. O povão que dá opinião sobre política é tão domesticado que no minuto que é eleito um cara para a presidência da Câmara que não esteja na coleira do Planalto, vira alvoroço. É como se a ordem natural das coisas tivesse sido abolida, a gravidade foi destruída, cima é baixo, esquerda é direita, versões do mundo Bizarro das pessoas começam a invadir o universo. Foi exatamente a mesma coisa quando o Severino Cavalcanti foi eleito no primeiro mandato do Lula. Ninguém acreditava e o petismo ficou revoltado. Na época, porém, o Petismo Organizado não tinha o Facebook pra ficar chorando o dia todo. Sua Malvadeza Eduardo Cunha é tão ruim, tão ruim que os poderes dele se limitam a priorizar quais projetos vão pra votação. Uma tragédia. O petismo não suportará essa manifestação de poder discricionário.
domingo, julho 26, 2015
Palestra sobre o problema das privatizações no Brasil
Erick Vasconcelos / 3:39 AM
Acabei de notar que nunca publiquei minha palestra do ano passado aqui. Então lá vai.

domingo, junho 28, 2015
Sobre a Lei Pelé e a base dos clubes de futebol brasileiros
Erick Vasconcelos / 4:45 AM
Comentei recentemente no Facebook sobre a Lei Pelé, que é frequentemente acusada de ter destruído os clubes brasileiros. O que pode ser verdade, mas ninguém diz que nossas fazendas foram destruídas depois do fim da escravidão. A Lei Pelé foi um avanço.

O sistema anterior, em que os clubes detinham o passe dos jogadores, era um absurdo e criava um sistema de servidão. O jogador era preso ao time mesmo que ele não estivesse contratado e sem ganhar salário. Era ridículo. Ninguém lembra, mas antes da Lei Pelé, os jogadores ficavam vários anos no mesmo time com salários pressionados pra baixo, porque não podiam comprar o próprio passe (que era colocado em níveis absurdos).

O problema de investimento na base é diferente. Tem a ver com o fato de que é impossível fazer qualquer tipo de contrato ou acordo com menores de 18 anos. Isso sim é o cúmulo. Deveria haver algum instrumento legal pra contratar os menores em quem o clube investiu. A porcentagem de clube formador é uma piada. Mas isso não é um problema da Lei Pelé, que combateu o sistema anterior que era muito pior.

Pra mim, o real problema é que o futebol brasileiro todo é estruturado em bases de 1920.

Os clubes de projeção nacional do Brasil ainda são geridos como associações de bairro, com dirigentes amadores por estatuto (literalmente amadores, eles não podem receber pelo trabalho). Essa é uma bizarrice da época em que o futebol estava se profissionalizando no Brasil e a aristocracia via aterrorizada o avanço dos jogadores pagos (e negros) e a decadência do "espírito olímpico" (que basicamente significava que receber pra jogar bola é pecado).

Isso se vê até nos programas de sócio dos clubes, que ainda contém bizarrices como "acesso às dependências do clube" -- porque você tem que ser capaz de fazer seu churrasco de aniversário na sede do seu time, claro.

Como a gestão é amadora e não tem qualquer financial stake sobre o futuro do time, acontecem esses descontroles financeiros cíclicos em todos os times. Isso acontece com todos os times, até os que são periodicamente chamados de "modelos de gestão".

O São Paulo ganhou tudo, foi chamado de modelo de gestão. Se endividou até o pescoço, desmontou o time e agora se reestrutura. O Corinthians, idem. O Cruzeiro, idem. O Vasco (meu time) torrou a grana toda num "projeto olímpico" e há 15 anos não é relevante depois de ter ganhado tudo.

Então aparece o governo pra fazer o "socorro" rotineiro aos times. No começo dos anos 2000 criaram a tal Timemania. Agora se fala em perdão das dívidas (que de vez em quando acontece, mas agora as dívidas já passam das centenas de milhões, então quem sabe?). Os clubes também tiveram um boom recente com o subsídio que receberam dos estádios novos da Copa e incorreram em ainda mais gastos.

Enquanto a estrutura dos times brasileiros não for reformada, vai ser isso aí mesmo. Ah, e não faz nenhum sentido atletas olímpicos serem patrocinados, mas clubes de futebol não poder fazer contratos com moleques de 15, 16 anos.

Quanto à CBF... bom, ela é um retrato do amadorismo dos nossos times. Literalmente, já que os 20 times da série A que votam em quem tá lá. Sem reformar os clubes, devem continuar a contratar Dungas.
quinta-feira, junho 25, 2015
I'll take your jobs
Erick Vasconcelos / 7:36 PM
O que eu acho peculiar nessas campanhas de esquerda anti-machismo, discriminação, etc, é como elas se beneficiam da fragilidade dos empregos dentro do capitalismo.

Alguém fez um comentário ruim? No problem at all, é só ele ser demitido, porque o trabalho é infinitamente substituível!

A sanha de demitir todo mundo e arrasar a vida das pessoas porque eles fizeram um comentário desagadável ("microagressão"). Talvez isso satisfaça os novos esquerdistas, mas eu acho um tanto preocupante.
terça-feira, janeiro 13, 2015
Respeito?
Erick Vasconcelos / 5:08 PM
Para a polícia não basta eles terem o poder físico e a legitimidade. Eles querem ter a deferência, a educação, a pompa e a celebração dos cidadãos comuns.

É uma classe especialmente treinada para se sentir superior e cheia de direitos que as pessoas normais não têm e para agir com violência se se sentirem afrontados. A legitimidade da polícia não pode ser questionada, nunca.

Aqui (link para o Facebook), um jovem que foi detido (segundo a página em que o vídeo apareceu, por uso de maconha). Algemado, os policiais ainda provocam o rapaz.

Ele foi corajoso. Como dizia Robert Anton Wilson, não existe comunicação entre desiguais, apenas relações de poder. Do mesmo jeito, não existe respeito entre desiguais. Somente força.
segunda-feira, outubro 20, 2014
Gregorio velho do estado que já está aí mesmo
Erick Vasconcelos / 5:14 PM
Publiquei isso aqui um tempo atrás falando do Gregório Duvivier no site do Liber. Acabei esquecendo de colocá-lo aqui também.

***

Não sou marxista, stalinista, petista ou lulista, até porque sou humorista e não acredito nessa coisa de ideologia. Dizem isso só porque eu defendo aquele estado maroto, presente, fomentando e intervindo. É claro que eu defendo: que seria da classe artística sem um editalzinho? Se for depender do privado, a gente fica sem cinema da retomada, sem teatro alterna, sem dança contemporânea, esse monte de coisa que a classe média adora mas não sustenta. Tudo que é privado é uma droga: Calypso não precisa de subsídio, né?

Pensa bem, o mundo não seria muito melhor se todos vivessem de edital cultural e concurso público? Repartição pública é meio deprimente, mas sem elas o que seria da juventude desse nosso país? Tenho certeza de que o mercado de cursinhos ajuda muito a nossa economia.

Todo mundo sabe que os melhores hospitais são privados, mas eu, que não sou direita-nem-esquerda-mas-comediante, acho que o problema é que o estado não é atuante o bastante. Quarenta porcentinho da produção nacional abocanhada pelo governo não é o suficiente. Acho que esse governo está muito acanhado na arrecadação, está na hora de um esforço maciço de achaque do contra-cheque do trabalhador, senão o SUS não aguenta.

Educação está no mesmo bonde. A particular pode ser até melhor, mas a culpa é da falta de grana, de professores, de material, de salas, de almoço, mas do governo não pode ser. Acredito que o governo faria bem se não fizesse mal. Diria Falcão, pior seria se pior fosse.

Aí vocês me perguntam: e aqueles que não têm acesso à saúde nem à educação pública? Ninguém mandou nascer no Brasil, amigo. Se vira aí. O mundo é meritocrático. Se quiser entrar em universidade pública top que nem a USP, estuda para a Fuvest. Mamar na vaca você não quer, hein? Aí você vai me dizer que só entra numa universidade pública uma pequena minoria. Ora, eu não ralei minha bunda todo dia no cursinho para colocar meus filhos na mesma faculdade que o meu motoboy.

Quando o motoboy cair da moto e morrer na fila do SUS, tudo muda. Aí a família dele pensa: “Puxa, precisamos melhorar a saúde pública”. Então os parentes votam em alguém melhor na próxima eleição. Eles vão se esforçar mais para mudar os rumos de Pindorama. Chega de inércia política. Se o povão aprender a escrever e fazer conta e ainda tiver bom atendimento médico, acaba acomodado. Aí não dá. Principalmente porque tem que sobrar grana para a música instrumental depois de financiar a saúde.

Bom mesmo era entregar o país nas mãos de um puta político. Tipo a Dilma, o Lula, o FHC, o Collor, o Sarney. O JK foi um herói, segundo a mini-série. Jango, um injustiçado, e o Jânio tinha a vassourinha que varria a corrupção. Se o político passado não resolveu o problema, a gente tenta outro até dar certo. A gente pode continuar tentando o mesmo método que dá errado há um século, uma hora tem que encaixar. É que nem trocar de técnico no futebol, vai que resolve. É disso que o Brasil precisa: mais estado e impostos se necessário, para financiar nossa saúde, educação, talvez uns editais para os meus colegas, uns financiamentos subsidiados para o Eike, uns concursos para a classe média que lota os espetáculos do Z.É.: Zenas Emprovisadas.

Não preciso nem ligar para político nenhum. Tudo que eu quero é o que já existe mesmo.
domingo, outubro 05, 2014
Dazed and Confused
Erick Vasconcelos / 8:34 PM
Dos desenvolvimentos mais desagradáveis da "nova direita" no Brasil são os novos fãs adolescentes conservadores, representados por figuras lamentáveis como Bolsonaro (chamado "mito", adjetivo dispensado a qualquer nulidade atualmente, ao que parece). Para esse público, a ditadura militar foi só uma grande "zueira" por 20 anos com a "esquerdalha". Para eles, a esquerda não sabe que "aparelho excretor não reproduz" e isso é extremamente engraçado (aparentemente o pênis deixou de fazer parte do processo reprodutivo humano).

A opressão estatal deixou de ser um problema e agora é muito engraçada. Minorias serem desrespeitadas é muito engraçado. A política é apenas um grande circo e não envolve as vidas e a riqueza e a pobreza de milhões de pessoas. É só mais uma forma de justificar a violência policial e justificar preconceitos. E fazer montagens de políticos com metralhadoras em cima de velociraptors.

Quem diria que a juventude seria representada pela fantasia de um sistema social que idealiza a sociedade de 70 anos atrás.
sábado, setembro 13, 2014
O que eu tenho escrito
Erick Vasconcelos / 5:25 PM
Um dos melhores textos que já escrevi, inspirado bastante sobre minhas leituras sobre o imperialismo brasileiro e o sistema corporativista que se desenvolveu principalmente a partir dos anos 1990 no país, Como as privatizações criaram novas estatais no Brasil:
As “privatizações” no Brasil não foram marcadas por qualquer transferência ou pulverização de poder e controle econômico; elas, efetivamente, foram reestruturações corporativas que mudaram muito pouco a distribuição do controle econômico e modificaram o regime jurídico das empresas apenas o suficiente para que se tornassem economicamente viáveis novamente.

Evidentemente ocorreram melhorias técnicas e aumentos produtivos; é também evidente que esse era o objetivo inicial das reestruturações, que não incluía qualquer mudança substancial no controle acionário das empresas “vendidas”. As privatizações brasileiras não foram uma maneira de livrar o estado do controle sobre empresas, mas foi a maneira que o estado brasileiro encontrou para manter o controle sobre elas.

A campanha eleitoral de 2014 conta com alguns candidatos que pretendem reavaliar os méritos das privatizações. Discutir as privatizações não é nada novo; a cada quatro anos há um novo ciclo de condenações a elas pontuados por alguns elogios infundados. A realidade é que apoiadores e opositores das privatizações falam de processos ideais imaginários. Poucos falam da realidade das privatizações no Brasil: não foi “entreguismo”, “privataria”; também não foi o ápice da “eficiência” e “enxugamento do estado”. Foi uma reformulação do aparato estatal e a inclusão da classe corporativa em seus quadros.
Aécio Neves e a ideologia tecnocrata, falando sobre como as ideias tucanas, apesar do marketing novo, são apenas mais uma iteração da velha tecnocracia:
Eleitores de políticos como o candidato à presidência Aécio Neves, assim como muitos apoiadores do PSDB de forma geral, se surpreendem pela falta de impacto de ideias atreladas à “eficiência” do setor público, que buscam um “choque de gestão” e a “profissionalização” do governo. É um pensamento moderadamente disseminado, que também era encabeçado no governo de Pernambuco (mais como manobra de campanha do que como política efetiva, vale ressaltar) por Eduardo Campos, morto no último dia 12 de agosto. No fundo, a crença é de que existe — ou ao menos deve existir — uma separação vital entre administração pública e política; entre ideologia e eficiência. Contudo, a ideia de profissionalizar a política, de colocar “técnicos” nos cargos públicos, de “gerir” a coisa pública como se fosse uma firma convencional é, em si, profundamente ideológica.
Por que os debates eleitorais são um circo fala sobre a ideia do jornalismo como mediação entre a elite e o público. O jornalismo, assim, não precisa recorrer aos fatos, mas só a uma projeção do "interesse público":
Os debates presidenciais televisados novamente são o centro dos comentários no Brasil. E novamente nós nos vemos “sem vencedor claro” e pouca ideia de que tipo de discussão assistimos entre os potenciais eleitos. Por que isso acontece?

O jornalismo moderno, uma versão do ideal de Walter Lippman de intermediação dos fatos entre o público e as elites, é especialmente adaptado à produção corporativa de notícias e análises. Como observou Kevin Carson, o modelo jornalístico atual requer mínima referência aos fatos, já que os fatos não são independentemente importantes e devem ser avalizados por algum tipo de elite de “especialistas”.
Eduardo Campos morre mas suas ideias infelizmente sobrevivem tenta escapar do revisionismo hagiológico da biografia de Eduardo Campos, que foi apenas mais um na linhagem de políticos corporativistas e patriarcalistas brasileiros:
Talvez seja inevitável que a morte de um político expressivo seja explorada de maneira sórdida pelo exército de interessados em se beneficiar de parte de sua memória. Eduardo já foi lembrado como uma “liderança promissora”, um “negociador”, um “estadista” que “transcendia divisões partidárias”. E isso tudo é mentira. Por isso talvez seja mais necessário ainda lembrar o que a entrevista de terça-feira de fato mostrou o que Eduardo Campos era: um político da velha guarda, ligado ao velho sistema e à velha elite, ao velho capitalismo de compadrio; um coronel personalista na tradição nordestina de fazer política.
O magnata dos ônibus e a coleção de vinis que você comprou para ele fala do caso curioso do dono de empresas de ônibus de São Paulo com a maior empresa de vinis do mundo, contada pelo New York Times. Sua riqueza aparentemente não foi perturbadora para quem escreveu a matéria, mesmo com os protestos de 2013 no Brasil inteiro:
Voltando para 2014, recentemente, o New York Times publicou uma reportagem (“The Brazilian Bus Magnate Who’s Buying Up All the World’s Vinyl Records“, 8 de agosto) que conta a curiosa história do dono de uma empresa de ônibus com uma coleção impressionante de vinis. É impossível exagerar a extensão da coleção de Zero Freitas, de 62 anos, dono de uma empresa que atende a periferia de São Paulo: ele mesmo só consegue estimar os números da coleção chegando a “vários milhões”.
Também tentei falar da tentativa de desumanizar os usuários de crack em O discurso do crack:
Em sua visita ao Brasil, perguntaram ao neurocientista Carl Hart o que ele pensava sobre o termo “Cracolândia”. Hart respondeu: “Com esse nome, nós mostramos para a sociedade como vilanizar certos grupos de pessoas”. É verdade. Ao falarmos da “Cracolândia”, divorciamos a questão de nossa realidade. A Cracolândia passa a ser um mundo separado em que vigoram regras diferentes da nossa vida ordinária.
E, por último, escrevi uma dobradinha de textos que falam sobre o relacionamento dos sindicatos do Brasil com a estrutura corporativa atual em A individualização dos problemas trabalhistas e Como o governo, empresas e sindicatos culparam você pelo seu desemprego:
A tendência a individualizar os problemas sociais pode soar como uma das pseudoexplicações sociais típicas do século 19, mas é uma ideia que não morreu. Como já escrevi anteriormente, o pensamento de que os indivíduos são responsáveis pela própria situação de desemprego por falta de qualificação é moeda corrente no governo, em empresas e sindicatos.

O discurso da qualificação para o “mercado de trabalho” toma a estrutura existente de produção e de emprego como dados e, se os trabalhadores não conseguem se inserir nessa estrutura, o problema é a falta de iniciativa individual. Esse discurso, naturalmente, nunca aparece de maneira destilada, mas é o substrato de muitas das defesas de cursos de capacitação e na lembrança permanente de que há “vagas de
terça-feira, setembro 02, 2014
Os jogadores de videogame são, sim, tóxicos
Erick Vasconcelos / 4:11 PM
Em um thread na timeline de um amigo no Facebook, algumas pessoas comentavam sobre a comunidade gamer, em relação a um artigo publicado no Examiner ("The gaming community is not a wretched hive of sexism and misogyny", 1 de setembro). O argumento principal de alguns comentadores é que, na verdade, jogadores de videogame não são tão tóxicos enquanto comunidade e que fazer esse tipo de afirmação poderia ser um tipo de estereotipação.

Meu comentário na discussão foi o seguinte (em inglês):
Okay, I've read the article, and now I can reply properly do Liam Jones and comment on the piece as a whole. As Ashley said, I was just joking on my inability to open the article, but it's true that I don't hold gamers in the highest regard.

It's true that it's a generalization to say that gamers as a community are toxic, but it's a useful one. In my experience, it's like saying that drunk people shouldn't be trusted behind the wheel - a useful rule of thumb.

I don't play online games mostly (only with friends, so I can cut down on the abuse), but my current girlfriend and my previous one do. They have been harrassed multiple times just because people listened to their voice during games. They tend to not talk for precisely that reason. I've seen complaints about online communities in several games (in this case, I can testify that League of Legends and WoW have terrible fans - and that taking into account that on average Brazil players are even worse, with their childish antics and stupid laughs). Ryot has even hardened their stance on toxic behavior online, because it was unbearable. They've recently banned a few pro players (the ones who bring in the cash) because they were being deemed a liability. Eve Online's developer did the same.

The harassment of Anita Sarkeesian is another case in which gamers as a community failed to act as if they deserve to be treated like adults. There are several other cases I could mention.

So yeah, in a sense it might be stereotyping, but my experiences and the experiences of people at large I've read about really do seem to paint a bad picture on gamers.

The article itself is very poor; the author says it's annoying to have people complain you're immature and inadequate all the time, and that games should not try to cater to a demographic they are not targeted at.

Well, first of all, of course it's annoying, but activists aren't trying to be nice. As a feminist friend once said, if they wanted to be nice, they would make a lasagna, not do activism. And saying that developers shouldn't be concerned by the content they put in their games is a copout - it's like saying that blackface performances aren't targeted at black people, so lighten up, blackie!

People are trying to be heard and to have their concerns represented. And games are part of culture, and as such promote or replicate messages that can and should be assessed by their value as a whole. I'm not saying that *all* complaints about video games are valid, but that gamers have been acting as if the medium is above critical analysis, because fun! It's not.

My Masters is actually on games and narratives. From my own interactions with some communities, it has been a problem to have them recognize that the content they consume is important to analyze critically, taking into account all the "social justice concerns," and to have them see that there are large segments of their player base who don't feel welcome or are harrassed in one way or another. That doesn't apply only to minorities, but also to very standard nerdy, white or otherwise not-"alpha" enough people who try to interact online.
Gamers, enquanto comunidade, precisam deixar a ideia de que sua expressão cultural é exclusivamente de nicho. Respeitabilidade enquanto cultura traz algumas responsabilidades e uma delas é que o conteúdo que você produz e consome passará por escrutínio público.

Eu ainda não tenho claras para mim quais são as causas desses comportamentos ruins nas comunidades gamer, mas é fato que eles existem e que devem ser combatidos. Se é possível eliminá-los por inteiro sem remover parte do que torna os jogos únicos, é uma questão em aberto.