sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Ser revolucionário, ser governista
Erick Vasconcelos / 12:38 AM
Originalmente publicado no Centro por uma Sociedade Sem Estado.

Com os 50 anos da instalação do regime militar no Brasil, o Estadão recentemente publicou alguns artigos que falavam sobre as circunstâncias políticas da época. Um deles, escrito por um general do exército brasileiro (“A árvore boa“, de Rômulo Bini Pereira), repercutiu por sua análise positiva e rósea dos anos de chumbo. Particularmente, chamou a atenção seu uso reiterado da frase “Revolução Democrática” para se referir ao golpe que ocorreu em 1964.

Não surpreende – os defensores da ditadura militar sempre fizeram questão de utilizar a expressão “revolução” por suas conotações positivas e eles não estão sozinhos. De fato, os livros de história usados na época da ditadura todos faziam questão de falar na Revolução Democrática e há um longo histórico de combate dessa cooptação linguística pelos opositores do regime.

Analogamente, a Venezuela atualmente ferve com protestos dos opositores do governo chavista de Nicolás Maduro, que os acusa de “demonizar a revolução”. O meme chegou ao resto da América Latina e é possível facilmente encontrar denúncias aos reacionários anti-Maduro e cartas de amor à “revolução bolivariana”. O tema é antigo nos governos socialistas que chegaram ao poder em várias partes do mundo. Cuba há mais de 50 anos celebra sua “revolução”, que aparentemente nunca termina. A da Venezuela acontece desde 1998 e, mesmo chegando em seu 16º ano, continua subversiva e anti-establishment.

É sintomático que defensores de regimes claramente opressores e exploratórios queiram vestir seus ídolos em roupas revolucionárias. A ordem estabelecida, afinal, é associada a todas os problemas sociais que já existem e revoluções só podem significar a subversão e a potencial solução desses problemas. Daí até mesmo óbvios conservadores como Rômulo Bini Pereira rotulam seu regime preferido como revolucionário.

Para a esquerda estatista, porém, trata-se de um mito fundador. A esquerda originalmente era o partido da mudança, da transformação, contra as amarras do antigo regime. Os estatistas que compõem os grupos corporativistas e social-democratas atualmente mantêm sua estética de rebelião, mas a encaixam num molde pró-governo e chapa branca.

No Brasil, mesmo com o PT no governo há quase 12 anos, a esquerda que o apoia consegue nos empurrar a narrativa de que seu domínio foi uma história de perseguição e rebelião. Há pouco tempo, os condenados por corrupção do Mensalão conseguiram a proeza de distorcer a narrativa a ponto de serem considerados presos políticos por sua base de aliados.

Na Venezuela, mesmo com o regime se aproximando das duas décadas, os chavistas e seus comparsas continuam a se fazerem de vítimas de um complô anti-revolucionário. E a esquerda pró-estado latino-americana faz questão de minimizar a violência contra a população venezuelana e de se agarrar à versão de que tudo não passa de um movimento orquestrado por golpistas da elite contrários às pretensas conquistas sociais do regime.

Mas essa é uma posição esquizofrênica da esquerda. Regimes de décadas de idade claramente não são revolucionários e, particularmente, o regime venezuelano (e o mesmo vale para outros regimes “de esquerda” da América Latina) não passa do mesmo domínio oligárquico com novos slogans.

Ou a esquerda mantém sua imagem punk rock ou abraça de fato sua vontade de idolatrar o estado. Ou seja: ou os esquerdistas se transformam libertários e questionam de fato todas as estruturas de poder ou simplesmente saem do armário e se assumem pelegos por vocação.

Não é possível ter as duas coisas. Os manifestantes venezuelanos certamente agradeceriam se os revolucionários estatistas parassem de justificar as bombas de gás lacrimogêneo e as balas de borracha que os atingem.


Being Revolutionary, Being Statist

Originally published on the Center for a Stateless Society website.

One of Brazil’s largest newspapers, O Estado de S. Paulo, recently published a few articles on the 50th anniversary of the military takeover of the Brazilian government. One of them, written by an Army general (“A árvore boa,” by Rômulo Bini Pereira) has had some repercussion due to its positive and rose-tinted appraisal of the so called “years of lead.” In particular, his use of the phrase “Democratic Revolution” to refer to the military coup of 1964 is conspicuous.

It’s not surprising, however — advocates of the military dictatorship have always made it a point to use the word “revolution” because of its positive connotations, and they are not alone. In fact, history books during the 21 years of the regime were always eager to mention the Democratic Revolution of 1964, and there has been a longstanding resistance against this linguistic cooption of the word “revolution” by political forces that clearly wanted nothing to do with actual change.

In the same vein, during the feverish riots in Venezuela against Nicolás Maduro’s government, the regime has accused the opposition of “demonizing the revolution.” The meme has reached the rest of Latin America and it is fairly easy to find denunciations of the anti-Maduro reactionaries and love letters to the “Bolivarian Revolution.” The theme is old among the socialist governments that have reached power in the world. Cuba has celebrated its continuous “revolution” for 50 years. Venezuela’s is ongoing since 1998, and even in its sweet sixteen continues to be subversive and anti-establishment.

It is understandable that defenders of clearly oppressive and exploitative regimes want to dress their idols up in revolutionary clothes. The current order, after all, is linked to all the social problems that already plague society and revolutions can only mean subversion and the potential solving of those issues. Thus, even obvious conservatives such as Rômulo Bini Pereira find it convenient to label their preferred type of government as “revolutionary.”

For the statist left, though, it is a founding myth. The left was originally the party of change, of transformation, against the chains of the Ancién Regime. The corporatists and social democrats that comprise the statist left nowadays keep this rebellious sentiment, but frame it in a pro-government, establishmentarian rhetoric.

In Brazil, the Worker’s Party (PT) has governed the country for 12 years, and their left-wing supporters have tried to pull the narrative that they have been rebellious and persecuted the whole time. A few months ago, politicians from PT convicted for corruption managed to distort the story so much that they virtually claimed to be political prisoners to their allies.

In Venezuela, even with regime closing in on two decades of rule, Chavistas and their cronies continue to claim to be victims of an anti-revolutionary agenda. And the Latin American statist left is all too happy to minimize the violence suffered by the Venezuelan population and to embrace the version that everything has just been a movement orchestrated by the elite against social progress.

But that is a schizophrenic position. Decades-old regimes cannot be revolutionary. The Venezuelan government, specifically (although the same goes for many other “leftist” states in Latin America) is nothing more than the same old oligarchy with new slogans.

The left can either keep their punk rock self-image or embrace their willingness to idolize the state. Either the leftists can become fully-fledged libertarians and question all power or they can come clean and admit to being lovers of authority. They can’t have it both ways.

Venezuelan protesters would certainly thank the statist revolutionaries if they stopped justifying the tear gas and rubber bullets.