sábado, outubro 25, 2008
O brasileiro lê apenas X livros por ano! Shocking!
Erick Vasconcelos / 8:52 PM
Quem conhece este blog sabe que eu sempre estou atento para o que o Serginho Groisman defende, para que então eu possa defender a posição diametralmente contrária. É uma ótima rule of thumb, posso dizer que falha pouquíssimas vezes, para não dizer que nunca falha, apesar de nunca ter me deixado na mão.

Serginho Groisman é um ícone, um símbolo que representa a beautiful people na minha mente, e uma de suas principais plataformas é o incentivo à leitura. Concomitantemente, minha posição a respeito da leitura é que devemos desincentivá-la.

O problema com isso é que eu abro dois flancos de ataque para meus inúmeros nêmesises:
1) "Ah, mas você só diz isso porque é vagabundo, preguiçoso, não lê nada, e é meio toupeira, pra dizer a verdade";

2) "Ah, mas você é um hipócrita, fica traduzindo livros e publicando na internet, depois vem pagar de gostoso e ficar falando que ler é palha".
Minha defesa dessas acusações seria a seguinte:

Eu não sou de fato contra a leitura, mas contra o endeusamento da leitura. Eu nunca defendi que a leitura fosse caminho para crescimento pessoal ou algo do tipo. E a maioria das pessoas concordaria comigo se parasse por alguns minutos para pensar sobre o assunto. Por quê? Ora, ora, todos sabem que existem milhares de livros porcaria, que não valem uma folheada. E no entanto as pessoas insistem em defender a leitura per se, sem limitações.

Certamente eu também não bateria no peito para dizer que não leio, que quem lê é nerd e tem que sair de casa, pegar um bronze. (Aliás, uma menina com quem eu morei não queria ser minha amiga porque eu era muito nerd e ficava "lendo o dia todo". Há idiotas para todos os lados, o que eu posso dizer?)

Eu acho que, no geral, nos preocupamos muito mais com se os outros estão lendo do que se nós estamos lendo. E se estamos lendo o que nos interessa. É dessas coisas que nascem coisas ridículas, como a construção de bibliotecas em favelas, como se fossem mais importantes do que saneamento básico para as famílias carentes (e na minha turma da faculdade já teve gente que defendeu isso).

Discussões sobre leitura me lembram sempre, também, as ridículas discussões sobre videogames, em que sempre alertam para o isolamento que os jogos podem causar, como se a socialização fosse um valor absoluto e não condicionado a outros fatores (que tipo de socialização? com quem será a socialização?).

Pensando nisso tudo, eu fiquei feliz ao encontrar a entrevista da Superinteressante de agosto, ano corrente, em que o psicanalista e professor de literatura Pierre Bayard, autor do livro Como falar de livros que não lemos, diz que ler não é tão importante assim.

Segue a entrevista na íntegra, porque além de não defender a leitura no geral, eu também não defendo a leitura de alertas de copyright:
Quer dizer que é possível ser culto sem ler um único livro inteiro?

Sem ler uma obra da primeira à última linha? Sim, claro! Para uma pessoa realmente culta, o mais importante não é ter lido várias obras por completo, e sim saber se orientar, situar o livro e o autor dentro de um conjunto, para poder compará-los e relacioná-los com outros. É como um encarregado do tráfego ferroviário: ele precisa estar mais atento ao conjunto de vagões e ao cruzamento dos trens do que ao detalhe do interior de um vagão. Ter essa visão do conjunto é muito mais importante do que saber detalhes do interior de um livro.

Quase todo mundo defende que uma pessoa precisa ler muito, mas nem todos lêem? Por quê?

É justamente essa obrigação de ter que ler que nos impede de chegar aos livros. Sacralizamos tanto os livros, o fato de ler e ter que guardar todas as informações e detalhes dos textos, que acabamos morrendo de medo das palavras e, então,... não lemos. Prefiro evitar todo tipo de "dever" ou "obrigação" sobre esse assunto. A leitura é um ato de liberdade. Não há como impor regras a ela.

Como assim?

Eu, por exemplo. Nunca li o Ulisses, de James Joyce, e nem pretendo. E nem por isso deixo de conhecê-lo. Sei que a história se passa em apenas um dia, tem a ver com a Odisséia, de Homero, e sei de vários detalhes que me permitem ter uma ótima conversa sobre o texto com quem quer que seja. E para isso não preciso mergulhar em suas páginas. Quer ver outro ótimo exemplo? Todo mundo fala da Bíblia. mas são raríssimas as pessoas que a leram do começo ao fim. E, no entanto, é um dos livros mais citados do mundo. Há milhares de formas de abordar um livro e não somente sua leitura integral.

E um desses jeitos é justamente a não-leitura?

A relação com a leitura é complexa. Entre a leitura e a não-leitura há uma infinidade de graus. Não podemos achar que a leitura da primeira à última linha é a única existente – até porque muitas vezes não fazemos isso. Podemos simplesmente percorrer as páginas do livro, ou ler o titulo e a orelha, ou então passar os olhos por um ensaio sobre a obra sem nunca tê-la entre as mãos. Um livro também pode entrar na nossa vida e fazer parte dela quando ouvimos falar sobre ele. Ler ou ouvir o que os outros dizem são atitudes que fazem com que tenhamos uma idéia e um julgamento sobre o seu conteúdo. E tudo isso já é uma relação com suas páginas, é também uma forma de ler.

Não precisamos sentir culpa ou vergonha por não ter lido as grandes obras?

Não – é muito melhor ser sincero com si próprio. A obrigação de ler os clássicos ou de ler os livros do começo ao fim é tão grande que faz muita gente mentir que leu, até mesmo professores universitários. Instaura-se assim uma mentira coletiva da cultura sem lacunas, de que devemos nos angustiar por não termos tanto quanto poderíamos. Mas não precisamos ter vergonha nem culpa. É melhor praticar a não-leitura ativa, ou seja, admitirmos que não lemos tal obra e, mesmo assim, falar sobre ela.

Você fala sério quando sugere que a não-leitura seja ensinada nas escolas?

Eu prefiro não dar conselhos. A idéia do que escrevi é mostrar uma forma leve e divertida de tirar a culpa do leitor por ele não ter lido essa ou aquela obra. Fazer com que as pessoas reflitam sobre a ação de ler, percam o trauma e, mais aliviadas, possam ler mais e livremente. Depois que os livros saíram, dezenas de pessoas vieram me confessar que ficaram mais calmas depois de perceber como ficam culpadas por não ter lido as grandes obras.

Se não temos a obrigação de ler tudo, por que alguém deveria ler seu livro?

Não deveria. Eu escrevo pensando em pessoas que se interessam pelos livros e que gostam de refletir sobre hábitos de leitura. Estudantes, professores, pessoas que estão na área das letras. Ninguém tem a obrigação de ler o que escrevi. Não quero dar conselho algum, da mesma maneira que não concordo com a idéia de que alguém "deve" ler Marcel Proust, "tem que" ler James Joyce.

Então podemos falar de livros que não lemos?

Sim, é até melhor que a gente fale sobre um livro sem tê-lo lido completamente. Um debate nunca se limita a um livro: geralmente acaba na discussão sobre nossas noções de cultura e literatura. Se eu tiver as mesmas idéias e referências idênticas às das pessoas com quem estou conversando, qual a graça? Aí não existe uma boa discussão, não existe troca de idéias, não existe prazer. A boa discussão está em nunca conhecer tudo.

Não há o perigo de incentivar a preguiça de ler?

Não quero de modo alguém dizer que não precisamos dos livros. Eu adoro ler, leio muito e não escrevi um tratado para que as pessoas parem de ler. A idéia é somente tirar o livro do pedestal do sagrado em que ele está. Quem incentiva a preguiça é a exigência de ler. Na escola, os alunos são obrigados a decorar detalhes do texto. Isso os afasta da leitura. Se o aluno não tem uma memória de elefante, pronto, vai mal na prova. A temida ficha de leitura, por exemplo. Eu nunca consegui fazer uma ficha de leitura decente na minha vida, porque tenho uma memória terrível. E meu filho, quando passou por essa tortura, me disse que era esse trabalho de decorar personagens e o enredo que o desencorajava a ler. Foi ai que comecei a pensar sobre esse trauma e sobre os milhares de caminhos que existem quando se trata de literatura.

Você fala que a "desleitura" é um desses caminhos. Dá para ler um livro se esquecendo dele?

Assim que terminamos um livro entramos em um movimento direto rumo ao esquecimento. Vamos esquecendo as passagens, as palavras, e acabamos transformando a obra lida em algo completamente diferente. Se li todo o Crime e Castigo e depois esqueci, isso quer dizer que eu li o livro ou não? E se não me lembro de nada? Se apenas o folheei, isso quer dizer que não li? Se alguém tem uma péssima memória – como eu –, acaba esquecendo inclusive se leu ou não o texto. Mas, cada vez que citamos a obra, ela vai se tornando outra coisa, vai mudando. É isso que eu chamo de desleitura, esse movimento pessoal rumo ao esquecimento.

Isso é bom ou ruim?

É bom. O filósofo Montaigne, por exemplo, era um esquecido célebre. Há passagens dos Ensaios em que ele diz que as pessoas mencionavam seus escritos e ele não percebia. Imagino que minha memória seja ruim como a dele. Já precisei reler meus livros porque os jornalistas começaram a solicitar entrevistas e eu não tinha idéia do que estavam falando. Mas isso faz também com que possamos ter conversas enriquecedoras sobre esses textos, porque nunca uma pessoa vai ter dentro de si o mesmo livro que outra. Cada um adiciona coisas suas às obras que leu. Há diferenças culturais que fazem com o que um livro possa ter infinitas leituras.

Em Como Falar de Livros Que Não Lemos, você dá conselhos e técnicas a quem quer ter essa atitude. As dicas vieram de experiência própria?

Quem vive no mundo da literatura, como no caso de professores como eu, sabe, na verdade, que não é preciso ler para falar de livros. Professores, críticos e jornalistas não têm tempo hábil de ler tudo o que poderiam, e isso acontece desde sempre. Então por que não admitem isso? Não é preciso decorar pontos e vírgulas para ter uma opinião sobre as obras. Para essas pessoas, criei algumas técnicas. Mas não vou enumerar para você porque eu sei que tem muita gente que vai comprar o livro só por causa dessa parte.

Você está ciente que a livro pode ser vendido como um guia dos picaretas da leitura?

Mas claro! Essa é a brincadeira, mas é muito melhor guardar segredo. Vai que o livro vira best seller também no Brasil.